Desastres das chuvas na Paraíba: é preciso intensificar as obras de drenagem para evitar novas ocorrências

Os impactos das mudanças climáticas têm atingido a Paraíba, com fortes chuvas que deixaram mais de três mil pessoas desabrigadas e 50 cidades em alerta. O conselheiro da ABES-PB, Tarciso Cabral da Silva, Professor da Universidade Federal da Paraíba, no Centro de Tecnologia – Departamento de Engenharia Civil e Ambiental, detalha os efeitos destes eventos adversos, cada vez mais comuns em diversas regiões do planeta, e as soluções mais urgentes.

Leia a seguir a entrevista:

Portal ABES-PB – Como as mudanças climáticas têm afetado o Nordeste? As chuvas na Paraíba estão em níveis acima do previsto para esta época de outono?

Prof. Tarciso Cabral da Silva – Conforme alguns estudos já apontaram, há consequências relativas às chuvas torrenciais, que normalmente atingem pequenas áreas, e às chuvas intensas caracterizadas por alto volume e continuidade, durando horas ou dias, provocando alagamentos, inundações amplas e deslizamentos. As regiões litorâneas do Nordeste têm enfrentado temporais mais intensos, certamente ligados às chuvas intensas, que têm causado, neste início de mês de maio, alagamentos e inundações em João Pessoa e Natal. Ademais, têm ocorrido, também, deslizamentos de encostas em capitais como Recife, Salvador e Fortaleza.

Outra consequência das mudanças do clima se refere à elevação do nível do mar: estudos da Universidade Federal de Pernambuco e da Universidade Federal da Paraíba apontam riscos crescentes relativos ao avanço do mar sobre zonas urbanas costeiras, principalmente como os efeitos de deslizamentos de barreiras costeiras.

Portal ABES-PB – O que o senhor considera que são os fatores mais influentes nas inundações e por que estas são tão frequentes em áreas urbanas?

Prof. Tarciso Cabral da Silva – As chamadas planícies de inundação dos rios não deveriam ser áreas sujeitas às ocupações antrópicas. Um dia elas irão ser inundadas devido à extrapolação do escoamento fluvial além das calhas principais dos rios. Como já dizia Da Vinci: “A grande inundação é aquela que ainda não ocorreu”. Ou seja, há riscos de caráter natural ou antrópico, ligados às chuvas intensas e às baixas elevações dos terrenos que não são fáceis de se conseguir soluções plausíveis.

Portal ABES-PB – Qual o papel da ocupação do solo?

Prof. Tarciso Cabral da Silva –A impermeabilização do solo nas cidades agrava os problemas de alagamentos e, em menor grau, os das inundações. As taxas de infiltração de áreas urbanizadas com asfalto, paralelepípedos, telhados e calçadas são bem menores do que as do solo vegetado ou até do solo nu. Daí o problema e a consequente necessidade de se implantar melhores projetos de drenagem de águas pluviais.

Portal ABES-PB – Quais seriam as soluções para mitigar os problemas advindos das fortes chuvas a curto, médio e longo prazos?

Prof. Tarciso Cabral da Silva – A curto prazo, se houve o desastre, há que se providenciar a retiradas das pessoas, dos animais e dos bens móveis, das áreas afetadas para abrigos provisórios ou áreas cobertas como quadras de esporte, escolas, ou outra edificação segura. A médio prazo, promover a desocupação das áreas de risco, majoritariamente nas planícies de inundação, e construir edificações em áreas seguras, isentas de riscos de inundação e de deslizamento. As áreas sujeitas a alagamentos são de solução mais fácil, com a implantação de obras hidráulicas de drenagem.

Portal ABES-PB – Como proceder, quais os critérios para realocar as edificações, moradias ou estabelecimentos como UPAs, de comércio e outros, para áreas propícias à urbanização?

Prof. Tarciso Cabral da Silva – Não seria só por estar em áreas mais altas que a edificação estaria em segurança. A proximidade de barreiras e encostas, e a qualidade física da edificação também influem para a ocorrência de desastres. Tive a oportunidade de desenvolver, com uma aluna do mestrado em Engenharia Civil e Ambiental da UFPB, uma metodologia, relativamente simples de aplicação, visando a definição de diretrizes de realocação de moradias para áreas adequadas de acordo com os critérios a seguir especificados: menores riscos de alagamento ou inundação, menor propensão aos deslizamentos de encostas e a promoção da melhor qualidade da moradia, com estudo de caso na comunidade Saturnino de Brito, em João Pessoa. Penso que se o poder público, nas esferas federal, estadual e municipal, considerar a adoção de ações levando em conta conhecimentos e metodologias, como acima referido, certamente deveremos ter muito menos problemas no futuro.

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